domingo, 21 de outubro de 2012

Laodicéia - Hoje



CARTA PARA A COMUNIDADE DE
LAODICÉIA


"Apesar de rico, você é infeliz, miserável, pobre, cego e nu!"

1. O texto: Ap 3,14-22
 
 


14.Ao anjo da igreja de Laodicéia, escreve: Eis o que diz o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira, o Princípio da criação de Deus.
15.Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente!
16.Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te.
17.Pois dizes: Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito - e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu.
18.Aconselho-te que compres de mim ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro.
19.Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te.
20.Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo.
21.Ao vencedor concederei assentar-se comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono.
22.Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.




  1. Situando

Cidade importante da região da Frígia na Ásia Menor, Laodicéia ficava a meio caminho entre Colossas e Hierápolis. A região da Frígia, devido às águas termais de origem vulcânica, destaca- va-se como centro medicinal com médicos famosos e como produtora de pomadas para o ouvido e para os olhos, chamada kolyrion. Laodicéia foi fundada em 250 aC por Antíoco II, rei de Antioquia. O povo de Laodicéia vivia da indústria de um tecido especial, feito de lã preta, muito procurado pelo comércio da época. Situada num entroncamento de estradas, a cidade tomou-se o centro comercial da região e, conseqüentemente, um centro bancário importante. A riqueza da cidade aparece nas inúmeras festas promovidas pela prefeitura. Tudo isto fez de Laodicéia uma cidade bastante auto-suficiente.
A comunidade judaica de Laodicéia nasceu de uma migração forçada. Por volta do ano 189 aC, querendo reforçar suas defesas, o Rei Antíoco III transferiu para lá cerca de duas mil famílias da Judéia. Esta colônia de judeus lutou muito para ter seus direitos reconhecidos pela cidade. Isto aconteceu por intervenção direta dos romanos em 45 aC, durante o governo de Júlio César (48 a 44 aC). Não sabemos quando surgiu a comunidade cristã na cidade de Laodicéia. É possível que tenha sido por meio de um companheiro de Paulo, chamado Epafras (Cl 2,1; 4,12-13).
Sabemos que Paulo chegou a escrever para eles uma carta (CI4, 16), que depois se perdeu. Aqui se aplica o que dissemos, anteriormente, a respeito da origem da comunidade cristã em Pérgamo.



3. Comentando
3.1. Apocalipse 3,14: a imagem de Jesus: "Assim diz..."
Assim diz "o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus". Na maneira de apresentar Jesus para a comunidade de Laodicéia, o Apocalipse acentua dois aspectos:

1) a fidelidade e a coerência com a verdade professada. Jesus é chamado "Amém" e "Testemunha fiel e verdadeira"; 2) a novidade criadora de Deus, presente em Jesus: Ele é chamado "o princípio da criação de Deus". Aqui, como nas outras cartas, a escolha dos títulos se explica, em parte, a partir da situação concreta da comunidade. Pois a comunidade de Laodicéia não tinha fidelidade nem coerência de vida.

Os dois primeiros títulos são sinônimos: "Amém" e "Testemunha fiel e verdadeira" (Ap 1,5). No Antigo Testamento, Amém é um título do próprio Deus e significa verdadeiro (Is 65,16). Paulo chega a dizer que Jesus é o Amém de Deus às promessas feitas no Antigo Testamento (lCor 1,20). Jesus, a sua vida e a sua prática, é a prova concreta de que Deus é coerente e fiel, pois realiza o que promete. O título Princípio da Criação evoca a Sabedoria divina que estava presente no princípio da criação (Pr 8,22-23). Sugere que a comunidade deve ser o princípio da nova criação, semente do Novo Céu e da Nova Terra. Ela não pode adaptar-se às normas da "velha" criação como a comunidade de Laodicéia estava fazendo de fato.



  1. Apocalipse 3,15-17: a situação da comunidade: "Conheço... "

A carta não relata nenhum ponto positivo na vida da comunidade de Laodicéia. Só aponta defeitos e faz um julgamento muito severo. Duas coisas chamam a atenção: 1) a comunidade não é fria nem quente e, por isso, Jesus a vomita; 2) ela se diz rica e auto-suficiente, quando, na realidade, é miserável, pobre, cega e nua. Estas duas coisas estão ligadas entre si. A comunidade aderiu ao sistema do Império que lhe garantia a riqueza.






Por isso, ela não se define frente à ideologia do Império. Não é fria nem quente. Por ser rica e famosa, centro de têxtil e de colírio, a cidade considerava-se superior às outras cidades. A mesma mentalidade parece ter contaminada a comunidade que chegava a dizer: "Sou rica, enriqueci-me e de nada mais preciso" (cf. Os 12,9).
O julgamento da carta segue um critério que é exatamente o oposto. Mesmo sendo rica em dinheiro, a comunidade de fato é infeliz, miserável e pobre. Mesmo vivendo num lugar onde se podia adquirir um bom colírio para os olhos, a comunidade é cega e não enxerga nada.






Mesmo vivendo num centro têxtil importante que fabricava muita roupa, a comunidade anda nua.

  
 




Jesus, a testemunha fiel e verdadeira, dá a sentença: "Por seres morna, nem fria nem quente, vou vomitar-te da minha boca". Em Ap 12,15 o próprio Império é apresentado como vômito de Satanás.

  1. Apocalipse 3,1 8-20: os conselhos de João: "Por isso... "

Nas cartas do Apocalipse, Jesus julga as comunidades, mas é um julgamento em que triunfa a misericórdia. Jesus não condena, mas pede conversão (Ap 2,5.16.21.22; 3,3.19). A comunidade de Laodicéia que recebeu o julgamento mais severo de todas, recebe também os conselhos da maior misericórdia. Por pior que seja uma comunidade, ela é sempre uma luz, não por mérito próprio, mas por causa da misericórdia de Jesus que está sempre pronto para corrigir, perdoar e acolher. Os conselhos para a comunidade de Laodicéia são dados através de imagens muito carinhosas: 1) a imagem tão bonita do caixeiro viajante de Isaías (Is 55,1). Como o caixeiro, Jesus aconselha a comunidade a comprar dele ouro verdadeiro, roupa para cobrir a nudez e colírio para poder enxergar (v. 18); 2) a imagem familiar do pai que repreende o filho porque o ama: "Repreendo e educo todos aqueles que eu amo"; 3) a imagem do peregrino que bate à porta pedindo hospedagem (v. 20). Pede para a comunidade estar bem atenta para perceber o toque de Jesus na porta, querendo entrar para jantar: "Se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entro em sua casa e vou jantar com ele e ele comigo!" Diz o Evangelho de João:

 "Se alguém me ama, guardará minha palavra e o meu Pai o amará, e a ele viremos e nele estabeleceremos nossa morada" (Jo 14,23).



3.4. Apocalipse 3,21-22: promessas ao vencedor
Diz o texto: "Ao vencedor concederei sentar-se comigo no meu trono, assim como eu também venci e estou sentado com meu Pai em seu trono". Esta imagem evoca novamente a vitória de Jesus sobre a morte. A imagem do Trono prepara o leitor, a leitora, para a solene visão do Trono de Deus que segue no capítulo 4.



  1. Alargando

4.1. O caminho da conversão

"Converta-se!" Parece até um estribilho que percorre as sete cartas. As comunidades de Éfeso, Pérgamo, Tiatira, Sardes e Laodicéia recebem o convite explícito ou quase explícito de converter-se (Ap 2,5.16.22; 3,3.19).
As comunidades de Esmirna e de Filadélfia, as duas que não apresentavam pontos negativos, e uma parte da comunidade de Tiatira, que não tinha deixado levar-se pelos desvios, a estas não se pede conversão. Elas já estão no bom caminho. No entanto, elas são convidadas a continuar em sua caminhada, fiéis até à morte (Ap 2,10), e a segurar com firmeza o que já possuem (Ap 2,25; 3,11).

Como fazer a conversão? Para as comunidades de Éfeso e de Sardes a conversão consiste em reviver o primeiro amor, "retomar a conduta de outrora" (Ap 2,4), "lembrar de como recebeste e ouviste a Doutrina (Ap 3,3). Perder a memória é o mesmo que perder a identidade e o rumo. Converter-se é fazer o retomo para redescobrir-se e reencontrar-se com a sua missão. No Antigo Testamento, os profetas sempre levam o povo a lembrar o início, o tempo da juventude, o tempo do noivado, do primeiro amor, o tempo do deserto (Jr 2,2-3; Os 11,IA; 12,10). Num momento de crise, o profeta Elias foi até o Monte Horeb, o lugar da origem do povo, para poder reencontrar em Deus o rumo de sua caminhada (lRs 19,1~18).

Para as comunidades de Pérgamo e de Tiatira, onde havia pessoas que tinham aderido aos grupos de Balaão e dos nicolaítas, a conversão da comunidade consiste em fazer um trabalho junto a essas pessoas e não deixá-las viver em paz até que não tenham abandonado as falsas doutrinas (espiritismo, protestantismo, relativismo e falso ecumenismo) (Ap 2,20; 2,14~15). Caso contrário, correrão o risco de serem advertidas pelo próprio Jesus quando Ele vier como juiz (Ap 2,16) ou poderá acontecer que essas pessoas sofram grandes prejuízos e doenças (Ap 2,21-23).

Para a comunidade de Laodicéia, aquela que se tornou auto-suficiente em sua riqueza e que recebeu a mais severa crítica, a conversão consiste em encher-se novamente de zelo e de fervor (Ap 3,19). E para evitar que ela e as outras se desesperem diante de seus muitos defeitos, João lembra que a crítica tão forte é motivada por um amor maior: "Repreendo e educo todos aqueles que amo" (Ap 3,19).

Converter-se, manter-se firme no caminho da conversão e, assim, chegar a ser vencedor: esta é a conduta proposta pelas cartas para as comunidades! Vencedor será aquele que mantém esta conduta até o fim (Ap 2,26). E como perspectiva sedutora da futura intimidade com Ele a ser alcançada através da conversão, Jesus usa a imagem do jantar: "Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir
minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele Comigo" (Ap 3,20).

Para aquelas comunidades, conversão era o mesmo que manter-se na contramão da sociedade com seus ídolos, suas festas, sua economia, sua religião, suas instituições. Era o mesmo que assumir uma vida de tensões permanentes, conflitos com os parentes, com os vizinhos, com as autoridades, com todos os que se sentiam incomodados pelo tipo de vida dos cristãos. Esta conversão permanente só era possível ser mantida através de uma vida comunitária muito intensa: as celebrações e os encontros, as orações e a fração do pão ajudavam a manter viva a memória de Jesus e a certeza de sua presença no meio da comunidade.

  1. Síntese das informações sobre a situação das comunidades

Fazia cinqüenta anos ou mais que elas vinham caminhando desde a sua fundação. O cansaço ia tomando conta de muitos (Ap 2,20). Havia a diminuição do primeiro fervor (Ap 2,4). Algumas comunidades pareciam estar muito vivas e ativas, mas por dentro já estavam mortas (Ap 3,1). Outras, vencidas pela rotina, já não eram nem frio nem quente (Ap 3,15-16). A falta de horizonte e a perseguição aumentavam o cansaço (Ap 6,10). Apesar do esforço e da boa vontade, os problemas, em vez de diminuírem, aumentavam sempre mais, e o resultado obtido era tão pouco!

Fonte: retirado do livro: Apocalipse de São João – A teimosia da fé dos pequeninos – Carlos Mesters e Francisco Orofino; editora vozes

Adaptações: Marcos - Ceifador
www.ceifadores.com.br

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postar um comentário